Natividade de Nossa Senhora na devoção popular madeirense
A Igreja Universal celebra no dia 8 de Setembro a Natividade da Virgem Maria, que este ano acontece no próximo domingo, com carácter de Festa. Muito embora o Diretório Litúrgico mande celebrar a liturgia do domingo XXII do Tempo Comum, o povo celebra, com pompa e solenidade, a Festa da Natividade da Virgem Maria, sobretudo onde ela é Padroeira, com este título, como no Faial, ou outro título, como a Senhora do Loreto no Loreto, a Senhora dos Remédios, em Santa Cruz, a Senhora da Luz na Ponta do Sol, etc.
Origem do título
Ao narrar a genealogia de Jesus Cristo, Mateus diz que "Jacob gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama Cristo». (Mt 1, 16).
A Igreja convida-nos a celebrar este dia com toda a solenidade e com a maior alegria possível, como se depreende dos textos litúrgicos que, desde a antífona da entrada falam de «exultar de alegria», em paralelismo com o «exultet» (a minha alma alegra-se) de Maria ao encontrar-se com a prima Isabel.
Esta Festa é muito antiga na Igreja, remontando ao século VII. Já S. João Damasceno convida os cristãos a celebrarem-na com alegria e solenidade, pois a Natividade da Virgem Maria constitui «o penhor das divinas promessas e como que a segurança e o voto do futuro nascimento de Jesus».
Da celebração da Natividade de Maria, vem oportunamente o título de Nossa Senhora da Natividade, com a qual é venerada sobretudo na paróquia do Faial, ficando conhecida na história como a Nossa Senhora da Natividade. A popularidade torna-a conhecida também como a Senhora do Faial.
Nasceu para que dela nascesse o Menino-Deus
O Pe. António Vieira dedica um dos seus sermões a esta questão: Maria sabe para que nasce: para que dela nasça Deus: «da qual nasceu Jesus Cristo».
Em comentários dignos da sua pena e da sua oratória, diz que o Evangelista oculta o quando, o lugar, o tempo, os pais. Cala o que deveria dizer, e diz o que deveria calar. Mas acrescenta ser isso mesmo apenas e só obra do Espírito Santo, pois acontece ao contrário do que é normal com os homens do Mundo.
«Nos nascimentos humanos, fazem grande caso os filhos de Adão (…) a grandeza da terra e da pátria onde nascem; estimam e estimam-se sobretudo da nobreza da geração e pais de que nascem.
Mas quando nasce A que o Espírito Santo preveniu com a Graça Original para Esposa sua, não quer o mesmo Espírito Santo que se diga que nasceu na sexta idade do mundo, e no quarto ano da Olimpíada cento e noventa; nem que nasceu na cidade de Nazaré, chamada por antonomásia Flor da Galileia; nem que nasceu de Joaquim e Ana - nos quais se uniu desde Abraão e David por legitima e continuada descendência o sangue de todos os Patriarcas e Reis -, e só manda escrever que nasce «A de que nasceu Jesus».
Porquê? Porque só quando se sabe o para que nasceu cada um, se pode fazer verdadeiro juízo do seu nascimento.
Quereis saber quão feliz, quão alto e quão - digno de ser festejado o Nascimento de Maria? - Vede o para que nasceu. Nasceu para que d'Ela nascesse Deus: da qual nasceu Jesus. (…)».
A devoção da Natividade na Madeira
É muito curioso o facto de ser apenas na paróquia do Faial, que se venera ex-professo, a Natividade de Nossa Senhora, como Padroeira da Comunidade Paroquial, desde os tempos da criação da mesma paróquia, sinal evidente de que já existe essa devoção, desde os tempos antigos da colonização daquelas terras.
Outro facto que nos põe a pensar - ou será apenas uma coincidência histórica - é haver uma Capela da Natividade no sítio também chamado «Faial» da paróquia de Santa Maria Maior. Que relação poderá ter havido entre estas duas primitivas capelas, dedicadas à Senhora da Natividade, as duas edificadas nos sítios com o mesmo nome, tão próximas no tempo, mas tão distantes no espaço.
A Capela da Natividade no sítio do Faial, em Santa Maria Maior foi edificada por Zenóbio Acciaioly, filho e sucessor na administração do morgadio de Simão Acciaioly, falecido em 1544.
Embora se desconheça a data da construção da primitiva capela de Nossa Senhora da Natividade do Faial, sabe-se que foi construída na fazenda povoada dos terrenos pertencentes a Lanzarote Teixeira, quarto filho do primeiro donatário de Machico, Tristão Vaz Teixeira. A capela já existe em 1531, pois é neste ano que o padre João Soares é investido como capelão. E é aqui fixada a sede da paróquia do Faial, quando criada por alvará régio de 20 de Fevereiro de 1550.
Estaremos falando de cinco séculos de devoção à Natividade de Nossa Senhora, trazidos pelos colonizadores e agora exportada pelos emigrantes.
Retrospetiva histórica
A Capela de Nossa Senhora do Faial ficava situada na margem esquerda da Ribeira, correndo muitas vezes o perigo de ser arrastada pela violência da corrente em invernias rigorosas. Nem a muralha construída no ano de 1699, obstou a que alguns anos mais tarde, as águas a destruíssem quase completamente, impondo-se a construção dum novo templo. Aliás impunha-se essa necessidade, também pelo acanhado das suas dimensões e adiantado estado de ruína. Consequentemente, por mandado do Conselho da Fazenda de 20 de Novembro de 1744, deu-se de arrematação a Cristóvão Gomes, pela importância de 7.960$000, a construção da nova igreja, que foi erguida na vertente da ribeira, ao abrigo da impetuosa violência da corrente. A primeira pedra foi benzida e lançada a 5 de Agosto de 1745, ignorando-se a data da conclusão das obras. Por breve pontifício de 30 de Agosto de 1785, foi concedida indulgência plenária aos que visitassem este tempo por ocasião da festa da Padroeira, 8 de Setembro.
Na noite de 12 de Setembro de 1960, após os festejos do dia da Senhora da Natividade, a igreja, considerada uma as mais belas da diocese, é pasto das chamas que a devoram completamente, deixando apenas alguns móveis, algumas imagens e o sacrário. Toda a diocese fica consternada, em especial os faialenses.
O então pároco, Pe. António Pestana Martinho e toda a comunidade paroquial metem mãos à obra: reedificar a sua Igreja de Nossa Senhora do Faial. Em 1961 iniciam-se as obras de recuperação que desembocam num templo amplo e funcional. Em seis anos apenas volta a erguer-se esse padrão da Fé à Senhora da Natividade, que vem dos primórdios do povoamento daquelas terras. A igreja volta a ser benzia e dedicada a 8 de Setembro de 1966, por certo dia da sua Festa.
Posteriormente foram sendo feitos melhoramentos, sobretudo no salão paroquial e salas para catequese e serviços pastorais. Uma vez mais cumpriu-se a profecia de Cristo: «as portas do inferno não prevalecerão». Uma vez mais a Virgem vence o Dragão.